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Pesquisa responsável: os desafios da autoria e da inteligência artificial

A integridade científica reúne princípios e práticas que orientam a condução ética da pesquisa. Esses princípios permitem que os resultados sejam confiáveis, possam ser verificados por outros pesquisadores e contribuam para o avanço do conhecimento. Transparência, responsabilidade e respeito à autoria são elementos que sustentam a credibilidade da produção científica.

A pressão por publicar

O currículo Lattes, os indicadores de desempenho, os rankings universitários e os sistemas de avaliação da pós-graduação fazem parte da realidade da pesquisa brasileira. Esses instrumentos são utilizados para acompanhar a produção científica de pesquisadores, grupos de pesquisa e instituições, além de subsidiar processos de financiamento, progressão na carreira, credenciamento em programas de pós-graduação e avaliações institucionais.

Nesse contexto, a publicação de artigos científicos tornou-se um dos principais indicadores da atividade acadêmica. A visibilidade da produção, o número de citações, o impacto dos periódicos e outros indicadores bibliométricos passaram a influenciar o reconhecimento profissional e a trajetória de pesquisadores e instituições.

Esse cenário contribuiu para consolidar a expressão publish or perish (“publique ou pereça”), utilizada para descrever a pressão por manter uma produção científica contínua. Publicar os resultados das pesquisas é parte da atividade científica, mas a valorização excessiva de indicadores quantitativos pode deslocar a atenção da qualidade para o volume de publicações.

Como essa pressão aparece na prática?

Entre os reflexos desse modelo estão:

  • aumento do número de artigos publicados;
  • divisão de uma mesma pesquisa em várias publicações;
  • crescimento do uso de preprints e postprints para acelerar a divulgação dos resultados;
  • ampliação da participação em eventos científicos;
  • maior utilização de indicadores bibliométricos na avaliação de pesquisadores e instituições.
Conceitos que fazem parte desse cenário
TermoO que significa
Currículo LattesPlataforma que reúne a produção acadêmica e científica de pesquisadores brasileiros.
Indicadores bibliométricosMétricas utilizadas para avaliar a produção científica, como número de publicações, citações e impacto dos periódicos.
PreprintManuscrito disponibilizado publicamente antes da revisão por pares.
PostprintVersão revisada de um artigo após a avaliação por pares, antes ou depois da publicação, conforme a política do periódico.
Revista predatóriaPeriódico que cobra pela publicação, mas não realiza um processo editorial e de revisão científica compatível com os padrões acadêmicos.
Quando a produtividade se torna um risco?

O aumento da produção científica e a ampliação das possibilidades de publicação representam avanços importantes para a comunicação do conhecimento. Entretanto, quando a produtividade passa a ser tratada como objetivo em si mesma, podem surgir práticas incompatíveis com a integridade científica.

Entre elas estão:

  • critérios inadequados de autoria;
  • fragmentação excessiva dos resultados de uma mesma pesquisa (salami publication);
  • autoplágio;
  • omissão de dados relevantes;
  • submissão de trabalhos a revistas predatórias;
  • priorização da quantidade de publicações em detrimento da qualidade da pesquisa.
O desafio para pesquisadores e instituições

O debate sobre produtividade acadêmica vai além do número de artigos publicados. Ele envolve a qualidade da pesquisa, a transparência dos procedimentos adotados, a responsabilidade dos autores, a reprodutibilidade dos resultados e o compromisso das instituições com a integridade científica.

Conciliar produtividade e qualidade continua sendo um dos principais desafios da pesquisa contemporânea, especialmente em um cenário marcado pela rápida circulação da informação, pela internacionalização da ciência e pela incorporação de novas tecnologias ao processo de produção do conhecimento.

Autoria é responsabilidade

A autoria de um artigo científico vai além da inclusão do nome de um pesquisador na publicação. Assinar um trabalho significa assumir responsabilidade pelo conteúdo apresentado, responder pela confiabilidade dos resultados e reconhecer de forma justa a contribuição de todas as pessoas que participaram efetivamente da pesquisa.

Os critérios de autoria adotados por grande parte da comunidade científica internacional estabelecem que um autor deve contribuir de maneira substancial para a concepção ou desenvolvimento da pesquisa, participar da elaboração ou revisão crítica do manuscrito, aprovar a versão final do texto e assumir responsabilidade pública pelo trabalho publicado. Quem não atende a esses critérios pode ser reconhecido em agradecimentos ou por outras formas de crédito, mas não deve figurar como autor.

O que caracteriza uma autoria adequada?

A autoria de um trabalho científico representa o reconhecimento da contribuição intelectual de cada participante da pesquisa. Além de atribuir crédito, ela também estabelece responsabilidades sobre o conteúdo publicado, incluindo a precisão dos dados, a integridade dos resultados e a observância dos princípios éticos da pesquisa.

De modo geral, um autor deve ter contribuído de forma significativa para o desenvolvimento do estudo, participar da elaboração ou revisão crítica do manuscrito, aprovar sua versão final e assumir responsabilidade pelo trabalho publicado. Pessoas que colaboraram em atividades de apoio, mas que não atendem a esses critérios, podem ser reconhecidas na seção de agradecimentos.

Diversos estudos sobre integridade científica mostram que conflitos relacionados à autoria estão entre os problemas éticos mais recorrentes na pesquisa.

ModalidadeComo aconteceConsequências
Autoria honoráriaInclusão de uma pessoa que não contribuiu de forma significativa para a pesquisa, geralmente em razão do cargo, da posição hierárquica ou do prestígio acadêmico.Atribui crédito indevido e dificulta identificar quem realmente responde pelo trabalho.
Autoria fantasma (Ghost authorship)O pesquisador ou profissional que escreveu ou desenvolveu parte importante do trabalho não aparece entre os autores.Compromete a transparência sobre quem produziu o conteúdo científico.
Autoria órfãUm colaborador que participou efetivamente da pesquisa deixa de ser incluído na lista de autores.Impede o reconhecimento da contribuição científica e pode gerar conflitos entre pesquisadores.
Autoria de prestígioInclusão de pesquisadores reconhecidos apenas para aumentar a credibilidade ou facilitar a publicação do artigo.Pode influenciar indevidamente o processo de avaliação do manuscrito.
Autoria pressionadaInclusão automática de chefias, coordenadores ou orientadores sem contribuição efetiva para a pesquisa.Desrespeita os critérios de autoria e cria relações desiguais dentro da equipe.
Autoria por reciprocidadePesquisadores combinam incluir mutuamente seus nomes em diferentes artigos para ampliar indicadores de produtividade.Infla artificialmente currículos e métricas de produção científica.
Free riderPesquisador aceita figurar como autor mesmo sem participar do desenvolvimento da pesquisa.Recebe reconhecimento acadêmico sem assumir responsabilidade pelo conteúdo publicado.
Autoria excludenteUm pesquisador é omitido intencionalmente da lista de autores, apesar de ter contribuído significativamente para o estudo.Viola princípios de justiça, transparência e reconhecimento da autoria.
Boas práticas para definir a autoria
  • Definir os critérios de autoria no início do projeto.
  • Registrar as contribuições de cada participante durante a pesquisa.
  • Revisar a lista de autores antes da submissão do manuscrito.
  • Utilizar critérios reconhecidos nacional e internacionalmente para definição da autoria.
  • Reconhecer colaboradores que não atendam aos critérios de autoria na seção de agradecimentos.
  • Manter transparência sobre a contribuição de cada autor, conforme solicitado por muitos periódicos científicos.

A definição clara da autoria desde as primeiras etapas da pesquisa reduz conflitos, fortalece a transparência e contribui para uma comunicação científica mais ética e confiável.

Má conduta científica vai além do plágio

Quando se fala em integridade científica, o plágio costuma ser a primeira situação lembrada. No entanto, ele representa apenas uma das práticas que podem comprometer a credibilidade da pesquisa.

Considera-se má conduta científica toda ação ou omissão que, de forma intencional ou por negligência grave, viole os princípios éticos da pesquisa. Essas práticas comprometem a confiabilidade dos resultados, dificultam a reprodução dos estudos e podem afetar pesquisas futuras, políticas públicas, decisões clínicas e a aplicação de recursos destinados à ciência.

Principais formas de má conduta científica
PráticaO que éConsequências
PlágioUtilização de ideias, textos, imagens ou resultados de outras pessoas sem o devido reconhecimento da autoria.Viola direitos autorais e compromete a integridade acadêmica.
AutoplágioReutilização de textos ou resultados já publicados pelo próprio autor sem informar que se trata de material anteriormente divulgado.Pode gerar duplicidade de publicações e distorcer indicadores científicos.
Fabricação de dadosCriação de dados ou resultados inexistentes para sustentar uma pesquisa.Invalida completamente o estudo e compromete sua credibilidade.
Falsificação de dadosAlteração, manipulação ou omissão de dados para obter resultados desejados.Produz conclusões incorretas e impede a reprodução da pesquisa.
Manipulação de imagens e gráficosAlteração de figuras, fotografias, tabelas ou gráficos para induzir interpretações equivocadas.Compromete a confiabilidade dos resultados apresentados.
Publicação fragmentada (Salami publication)Divisão artificial de uma única pesquisa em vários artigos para aumentar o número de publicações.Infla a produtividade científica e dificulta a compreensão do estudo como um todo.
Omissão de resultadosExclusão de dados que contradizem a hipótese ou que poderiam alterar as conclusões da pesquisa.Produz uma visão parcial dos resultados e compromete sua validade científica.
Conflito de interesse não declaradoO autor deixa de informar vínculos financeiros, institucionais ou pessoais que possam influenciar a pesquisa.Reduz a transparência e pode afetar a credibilidade das conclusões.
Ausência de preservação dos dadosPerda, destruição ou falta de armazenamento adequado dos dados da pesquisa.Impede a verificação e a reprodutibilidade dos resultados.
Erro não é sinônimo de fraude

Nem todo problema encontrado em uma pesquisa caracteriza má conduta científica.

A atividade científica envolve experimentação, revisão de hipóteses e aperfeiçoamento constante dos métodos. Erros metodológicos, interpretações equivocadas ou resultados inesperados podem ocorrer durante o desenvolvimento de um estudo. Quando identificados, devem ser reconhecidos, comunicados e corrigidos de forma transparente.

A má conduta científica, por outro lado, envolve a intenção de enganar ou a negligência grave na condução da pesquisa. Nesses casos, não apenas o estudo é comprometido, mas também a confiança entre pesquisadores, instituições, agências de fomento, periódicos científicos e a sociedade.

Como prevenir problemas de integridade científica?

Algumas práticas reduzem significativamente o risco de ocorrência de má conduta durante a pesquisa:

  • registrar adequadamente todas as etapas do estudo;
  • manter os dados organizados e preservados;
  • documentar alterações realizadas durante a pesquisa;
  • declarar conflitos de interesse sempre que existirem;
  • citar corretamente todas as fontes utilizadas;
  • revisar cuidadosamente tabelas, gráficos e imagens antes da publicação;
  • utilizar ferramentas de inteligência artificial de forma transparente e responsável;
  • conhecer e seguir as políticas de integridade da instituição e dos periódicos científicos.

A integridade científica depende da adoção dessas práticas ao longo de todo o ciclo da pesquisa, desde o planejamento do estudo até a publicação e preservação dos resultados.

A política de integridade da Unicamp

A promoção das boas práticas em pesquisa integra a política institucional da Unicamp e tem como objetivo fortalecer a qualidade, a transparência e a confiabilidade da produção científica desenvolvida na Universidade. Além de orientar pesquisadores e estudantes, essa política busca prevenir situações que possam comprometer a credibilidade das pesquisas e promover uma cultura baseada na ética e na responsabilidade científica.

Para colocar essa política em prática, a Universidade instituiu a Comissão de Integridade em Pesquisa (CIP) por meio da Deliberação CONSU-A-049/2020. A Comissão é responsável pela implementação da Política Institucional de Boas Práticas e Integridade em Pesquisa e atua junto a docentes, pesquisadores, estudantes, servidores técnico-administrativos e demais participantes de atividades de pesquisa vinculadas à Unicamp.

Como atua a Comissão de Integridade em Pesquisa (CIP)?
Eixo de atuaçãoO que faz
Educação e prevençãoPromove cursos, palestras, oficinas, materiais de apoio e outras ações de formação sobre ética, autoria, integridade dos dados, comunicação científica, direitos autorais, conflitos de interesse, gestão de dados de pesquisa e boas práticas em pesquisa.
OrientaçãoApoia pesquisadores, estudantes e unidades acadêmicas na interpretação das normas e na solução de dúvidas relacionadas à condução ética da pesquisa, autoria, compartilhamento de dados, uso de inteligência artificial, preservação de registros da pesquisa e outros temas ligados à integridade científica.
ApuraçãoAnalisa relatos de possíveis casos de má conduta científica e conduz os procedimentos previstos na política institucional, assegurando o contraditório, a ampla defesa e o respeito aos direitos das pessoas envolvidas.
A quem a política se aplica?

As diretrizes da Política Institucional de Boas Práticas e Integridade em Pesquisa abrangem toda a comunidade envolvida com atividades de pesquisa na Universidade, incluindo:

  • docentes;
  • pesquisadores;
  • estudantes de graduação e pós-graduação;
  • servidores técnico-administrativos;
  • bolsistas e colaboradores vinculados a projetos de pesquisa.
A prevenção é parte da integridade científica

A atuação da Comissão vai além da apuração de possíveis irregularidades. Um de seus principais objetivos é promover ações educativas que contribuam para prevenir conflitos e fortalecer a cultura da integridade científica na Universidade.

Isso inclui incentivar o planejamento adequado das pesquisas, a definição transparente dos critérios de autoria, a preservação dos dados de pesquisa, o respeito aos direitos autorais, a declaração de conflitos de interesse, o uso responsável da inteligência artificial e a adoção de boas práticas em todas as etapas da produção e da comunicação do conhecimento científico.

Ao integrar ações de formação, orientação e apuração, a Política Institucional de Boas Práticas e Integridade em Pesquisa reforça que a integridade científica é uma responsabilidade compartilhada por toda a comunidade acadêmica e constitui um dos pilares da produção científica desenvolvida na Unicamp.

Esse compromisso não se encerra com a divulgação de um artigo. Ele acompanha cada decisão tomada durante a pesquisa e ganha novos contornos diante das transformações tecnológicas que já fazem parte da vida acadêmica. Entre elas, a inteligência artificial ocupa um lugar cada vez mais presente e levanta questões sobre autoria, transparência, responsabilidade e uso ético das ferramentas digitais.

Na próxima publicação, a série aborda como a inteligência artificial vem sendo incorporada à pesquisa acadêmica e quais diretrizes orientam seu uso responsável na Unicamp.

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